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Enquanto Globo e CazéTV brigavam, o SBT encontrou o trio que faltava às Copas

Galvão Bueno, Mauro Beting e Alexandre Pato formaram um trio tão natural que fica a sensação de que esse encontro deveria ter acontecido muito antes

Por Victor Rodrigues

A Copa de 2026 teve uma disputa paralela acontecendo a cada rodada. Não era dentro de campo, mas nas transmissões.

A Globo defendia seu território, explorando a força da televisão aberta, sua estrutura e a vantagem de entregar o gol antes do streaming. A CazéTV respondia com a linguagem que a transformou em fenômeno, a proximidade com o público e o lembrete constante de que era a única a mostrar todos os jogos do Mundial.

A troca de provocações virou parte do torneio. Cada recorde era comemorado, cada número de audiência ganhava manchete e até o atraso da imagem passou a ser usado como argumento publicitário.

No meio dessa disputa, o SBT fez algo mais interessante do que simplesmente tentar copiar um dos lados. Criou uma transmissão com personalidade própria.

E muito disso aconteceu por causa do encontro entre Galvão Bueno, Mauro Beting e Alexandre Pato.

A final do último domingo, vencida pela Espanha por 1 a 0 sobre a Argentina, marcou a despedida de Galvão das narrações de Copas do Mundo. Era natural que ele fosse o centro das atenções. Afinal, poucas vozes estão tão ligadas à memória do futebol brasileiro quanto a dele.

O acerto do SBT foi não deixar que a transmissão dependesse apenas dessa nostalgia.

Galvão encontrou em Mauro Beting alguém capaz de acompanhar suas histórias, corrigir o rumo da conversa quando necessário e acrescentar informação sem quebrar o ritmo da narração. Ao mesmo tempo, Alexandre Pato trouxe uma visão que não vinha dos livros, das estatísticas ou dos arquivos, mas do campo.

Os três se completaram de uma maneira rara.

Galvão sabia reconhecer o tamanho do momento. Mauro entendia o jogo e carregava repertório para contextualizar praticamente qualquer situação. Pato percebia movimentos, reações e decisões que muitas vezes passam despercebidos para quem nunca viveu um vestiário profissional.

Não havia a impressão de que um estava tentando aparecer mais do que o outro. Era uma conversa sobre futebol, com três pessoas olhando para a mesma partida de lugares diferentes.

Mauro Beting foi quem melhor costurou essa combinação.

Há comentaristas que parecem falar apenas para provar que sabem. Mauro costuma fazer o contrário. Ele usa o conhecimento para ajudar quem está assistindo. Consegue explicar uma mudança tática sem transformar a transmissão em uma aula e contar uma história sem se esquecer de que a bola continua rolando.

Na final, esse equilíbrio foi fundamental. Espanha e Argentina fizeram uma partida tensa, com poucos espaços e longos períodos sem grandes oportunidades. Era o tipo de jogo em que o comentarista pode cair na repetição ou começar a procurar uma polêmica que não existe.

Mauro manteve a transmissão viva.

Quando Galvão recuperava uma lembrança, ele acrescentava contexto. Quando Pato falava sobre o comportamento de um atacante ou sobre a pressão de uma decisão, Mauro ajudava a transformar aquela percepção em informação para o público.

Pato, por sua vez, foi ganhando espaço durante a competição justamente por não tentar ser um comentarista tradicional. Seus melhores momentos aconteceram quando falou como jogador: sobre movimentação, ansiedade, confiança, leitura corporal e escolhas feitas em poucos segundos.

Foi nesse contraste que o trio funcionou.

A experiência de Galvão não anulava a participação dos outros. O conhecimento de Mauro não diminuía a espontaneidade de Pato. E a presença de um ex-jogador não servia apenas como atração ou nome conhecido.

O resultado também apareceu na audiência. O SBT garantiu a vice-liderança durante a final e chegou ao seu melhor desempenho na prorrogação. Ao longo da Copa, o futebol ajudou a emissora a melhorar seus índices e a recuperar espaço em uma faixa que havia se tornado cada vez mais disputada.

Mas os números não contam tudo.

O SBT saiu fortalecido porque ofereceu uma transmissão que o público escolhia acompanhar. Não apenas porque Galvão estava ali, mas porque o conjunto funcionava.

Enquanto Globo e CazéTV brigavam pelo título simbólico de maior transmissão da Copa, o SBT mostrou que ainda havia espaço para uma equipe que tratasse o futebol com emoção, memória e boa conversa.

A homenagem exibida depois da final reforçou essa sensação. Coube a Mauro Beting escrever e narrar a crônica de despedida de Galvão. Foi uma escolha coerente com tudo o que aconteceu durante o torneio.

Mauro havia sido o elo da equipe dentro dos jogos. No último ato, também foi quem encontrou as palavras para encerrar a história de Galvão nas Copas.

Talvez o sentimento deixado pela transmissão do SBT seja justamente esse: o de que Galvão Bueno, Mauro Beting e Alexandre Pato deveriam ter se encontrado antes.

Era o trio que faltava às Copas.

Uma pena que tenha surgido apenas na última de Galvão.

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